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Na vida digital, que se tornou a única possível em vários momentos da pandemia, a psicologia caminha para o atendimento além da consulta. Essas e outras tendências nos ajudam a entender a realidade que se constrói hoje a partir de tantos desafios na saúde mental.

Tentamos desvendar essa trama numa conversa com o Professor Associado do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia: Cognição e Comportamento da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), psicólogo e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Psicologia. 

Após a pandemia, as pessoas que vão procurar apoio psicológico serão aquelas que já o faziam ou também quem passou a buscar durante este período?

As pessoas que já sofriam antes da pandemia serão as mais afetadas. São indivíduos com certa vulnerabilidade e uma resistência mais baixa ao aumento de estresse. No entanto, temos pessoas, como profissionais da linha de frente do combate à Covid-19 e aquelas obrigadas a fazer home office em condições ruins – sem apoio para as crianças em casa, por exemplo – que se tornam também vulneráveis. É preciso pensar que, daqui a alguns meses ou anos, como numa quarta onda, venha o efeito psicológico da pandemia, na forma de estresse pós-traumático e aumento de ansiedade. A pessoa pode não sentir nada agora, mas adiante aparecem sintomas. Esse conjunto de indivíduos formará o público de pacientes nos consultórios no pós-pandemia.

A teleconsulta eliminará a experiência presencial nos consultórios dos psicólogos?

Não. Um tipo de consulta não substitui o outro. Nada substitui o olhar sem ser por meio de uma tela. Por outro lado, a pandemia trouxe um avanço nos atendimentos, quase que forçado, por tela em uma consulta. A teleconsulta já era permitida pelo Conselho Federal de Psicologia, mas não era uma terapia completa de atendimento; existiam limitações. O órgão alterou essa legislação e tivemos um avanço, até para treinamento de novos profissionais. Mas há situações em que o teleatendimento não é utilizado, como casos de agressão e de tentativa de suicídio. Essas pessoas precisam ser atendidas presencialmente. O teleatendimento, por outro lado, possibilita que pessoas que estão em áreas remotas ou que viajam muito consigam manter seus tratamentos. O importante é saber quando e em que casos utilizar o teleatendimento.

As crises de ansiedade e angústia que as pessoas têm durante a pandemia devem ser uma tendência ou as vacinas e o fim do confinamento devem minimizar a ocorrência desses casos?

A vacina traz esperança, mas não vai permitir o fim imediato do confinamento. O nível de estresse permanecerá alto por muito tempo. Haverá pessoas que continuarão com crise de ansiedade, medo do retorno da pandemia, lembranças traumáticas. Durante o confinamento, por exemplo, temos restrições a velórios e funerais, rituais que fazem parte da vida. A privação desse tipo de experiência tem um impacto diferente e que deve continuar mesmo após a pandemia. 

Do ponto de vista psicológico, quais serão os aprendizados de um período tão longo de pandemia?

Não esperávamos que fosse tão longo e fomos nos adaptando. Isso é uma característica positiva do ser humano, mas acaba cobrando um preço, que é o estresse. Aprendemos muita coisa: trabalhar em casa, fazer coisas que não fazíamos. Por outro lado, acredito que aprenderemos a importância de pequenos hábitos de antes, como um café no trabalho, uma conversa no corredor. Esses momentos criam laços, promovem interatividade. É importante ressaltar que a saúde mental vai além do tratamento. Também consiste em propiciar um ambiente que estimule o bem-estar entre as pessoas e a qualidade de vida. Em uma empresa, por exemplo, se o gestor age preventivamente e estimula relações sociais saudáveis, consegue diminuir casos de assédio no trabalho, entre outros ganhos para a saúde mental. 

Quais são as tendências na prática da Psicologia?

A pandemia impulsionou o mundo digital na Psicologia. Muitos profissionais passaram a utilizar como recursos as teleconsultas, e-mails e mensagens por aplicativo. Já existem testes psicológicos que podem ser feitos de maneira on-line. Esses serviços serão mais desenvolvidos. O atendimento on-line para além da consulta é uma tendência. Também vemos que a ciência como um todo nunca teve tanta divulgação. A preocupação com a saúde mental também veio para ficar. 

É importante observar que aplicativos voltados para saúde mental são bons (autoguiados, por exemplo, e outros com profissionais na retaguarda), mas funcionam para uns e não para outros. Isso me preocupa um pouco. Pessoas com pensamento suicida, por exemplo, não devem fazer tratamento autoguiado, mas muitas buscam por ele.

A valorização da Psicologia ficará como legado. Estamos quebrando tabus, mostrando que não é sinal de fraqueza buscar um profissional para auxiliar com sua saúde mental.

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